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Trilhas, Travessias e Trips de Mochila

A Conquista do Massiambu Oeste

Finalmente o Massiambu Oeste estava ali! Pouco mais de 300 metros a frente aquele cocuruto que, segundo as cartas do IBGE, é o ponto culminante da Serra do Cambirela. Mas a montanha não se entregou…

Sobre a Serra do Cambirela…

Localizada no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro (SC) a Serra do Cambirela é famosa por dois eventos: o primeiro deles data de 1949, quando um avião se chocou nas suas encostas e vitimou todos os 6 tripulantes e 22 passageiros; mais recentemente, em 23 de julho de 2013, o bloco de montanhas voltou a ser notícia ao amanhecer coberto por uma camada de neve.

No que diz respeito ao montanhismo, as atividades na região limitam-se a ascensões de diferentes faces do Pico do Cambirela, com aproximadamente 920 m.s.n.m.. Todavia, sabe-se que a serra possui diversos locais que ultrapassam a cota dos mil metros, sendo o ponto culminante 1275 m.s.n.m. – segundo o IBGE, batizado de Massiambu Oeste

A ideia de realizar incursões em outras localidades desta serra surgiu ainda em 2016, em conversa com Reginaldo Carvalho enquanto voltávamos da Mantiqueira. Montanhista experiente, geógrafo e exímio pesquisador dos cumes catarinenses, foi Reginaldo quem liderou o trio completado por este que vos escreve (Henrique Krueger) e Afonso Lenzi na empreitada que alcançou o cume da referida montanha.

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DIA 01 – Aproximação:

Era manhã de 15 de agosto (2017) quando nos encontramos no litoral catarinense para seguir juntos até a pequena comunidade de Vargem do Braço, localizada nos arredores do rio homônimo, em Santo Amaro da Imperatriz (SC). Uma rápida conversa com agricultores locais nos garantiu um lugar para deixar o carro em segurança e, as 10:15 horas, com as mochilas nas costas, iniciamos a caminhada.

O trecho inicial compreende uma estrada de pouco mais que 2 km em meio a pastagens, seguindo em sentido sul pelas margens do rio Vermelho. A partir daí, já imersos na mata atlântica, dobramos para leste iniciando a subida de forma bastante acentuada. Foram cerca de 160 metros de elevação em uma distância de 700 metros. Baixamos e cruzamos o Rio vermelho as 11:10 horas, abrindo mão de sua companhia: ele seguiu seu curso à leste e nós, em rumo sudeste, adentramos numa crista que bordeava o rio da Nova Descoberta e seus contribuintes, num constante sobe e desce por cerca de 4.5 km até atingir os campos de altitude, as 14:10 horas, na cota aproximada de 800 metros.

Todo esse trajeto e os 2.3 km seguintes que percorremos pelos campos antes de iniciarmos as primeiras investidas a leste procurando caminho para cruzar uma baixada de mato fechado a partir de onde poderíamos atingir uma crista que nos levaria até os pontos culminantes da serra, foi realizado em chão batido. Aparentemente o traçado era utilizado por colonos há décadas, possivelmente para levar o gado até as partes altas da serra e, talvez, cruzar até o litoral, alcançando as cidades de Palhoça e Paulo Lopes, próximas a capital catarinense.

Na ausência de um trajeto aberto, acabamos embrenhando à facão até cruzar um pequeno córrego para, do outro lado, armar o acampamento. Era por volta das 16:15 horas e havíamos caminhado cerca de 10.7 km. Imaginando que dali em diante não haveria mais trechos batidos, descansamos.

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DIAS 02 e 03 – Alcançando o Massiambu Oeste

No dia seguinte separamos somente os materiais essenciais e as 08:30 horas iniciamos a incursão objetivando atingir o cume do Massiambu Oeste. Inicialmente seguimos “polindo” com facão um caminho de anta (confirmado por fezes e pegadas encontradas) em meio a vegetação arbustiva, até atingir um novo trecho de campo em uma crista que subia sentido norte e culminaria nas partes mais altas, ainda separadas de nós por um profundo cânion a direita.

Nem mesmo a crista facilitou as coisas, pois haviam diversas lombas e cocurutos cercados por vegetação densa que teríamos que cruzar até chegar em um colo onde, aparentemente, conseguiríamos cruzar para leste e, finalmente, alcançar o alto da Serra do Cambirela.

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Trazendo dados mais precisos, foram cerca de 2 horas para vencer os aproximadamente 1,5 km do acampamento até o início da crista; e mais 3 horas para vencê-la por completo e cruzar até o alto da serra, trecho de aproximadamente 2 km. Isso sem parar para almoçar!

Finalmente o Massiambu Oeste estava ali! Pouco mais de 300 metros a frente aquele cocuruto que, segundo as cartas do IBGE, é o ponto culminante da Serra do Cambirela. Mas a montanha não se entregou, manteve de guarda ao seu redor mais um trecho de mata densa, repleta de bromélias, quiçaça e taquaras encravadas em meio a rochas que escondiam diversas gretas, algumas com mais de 10 metros de profundidade. Com facão em punho escalando mato atingimos o cume as 14 horas e 16 minutos, após cerca de 6 horas de caminhada. Ali o GPS registrava 1300 metros de elevação, diferente dos 1275 citados pelo IBGE.

Além disso, visualmente há outro ponto protuberante cerca de 1 km a frente, o Massiambu Leste, cuja cota na carta topográfica consta como 1254 metros, mas, visualmente, parecia ligeiramente mais alto que o ponto que nos encontrávamos. Um novo objetivo pro futuro? Honestamente, não sei… Ao longo de todo o caminho ficou evidente a importância socioeconômica e ambiental de toda aquela serra, aparentemente intocada, especialmente quanto a disponibilidade hídrica, sendo um importante manancial que abastece boa parte da região da Grande Florianópolis.

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Foram cerca de 25 minutos descansando no cume, onde deixamos um caderno improvisado (protegido em um tubo de pvc) para eventuais registros de futuras ascensões, embora, pelos motivos citados no parágrafo anterior, optamos por não divulgar massivamente a tracklog e estimular a exploração da área.

Não vou entrar nos méritos da volta, basta citar que, embora tenha sido bem mais rápida (levamos 3 horas para atingir o acampamento novamente), não foi nada simples! Quase nos acidentamos em uma greta escondida sob o capim próxima a uma das canaletas de água que tivemos que cruzar. Por fim, ressuscitamos no terceiro dia após baixar até o carro e celebrar com uma cerveja gelada e os restos de um buffet às margens da BR 282.

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P.S.: Deixo aqui uma menção honrosa ao amigo, montanhista e profundo conhecedor da Serra do Cambirela, Silvio Adriani. Mesmo não podendo participar da empreitada por conta de compromissos profissionais, ele não mediu esforços em nos prestar auxílio e informações que colaboraram para o nosso sucesso. Obrigado, amigo!

1 Comment

  1. Parabéns pela empreitada meus amigos! Na próxima quero ver se acompanho os Srs.

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