“Afinal, hora é Tolkien, hora é “O Mágico de OZ”, assim fica complicado acompanhar o raciocínio!” Relaxa que não tem nada a ver com contos de fadas, nossa essência está nas montanhas e é sobre elas que vamos falar. Pra ser mais específico, sobre a manutenção das trilhas, então… Era uma vez


Foto: Wallpaperstock

De uns tempos pra cá tenho notado um aumento significativo de pessoas realizando atividades voluntárias voltadas a limpeza e manutenção de trilhas em diferentes locais. Aleluia! Até uns poucos anos a maioria só queria saber de curtir e nada de botar a mão na massa, por consequência muitos caminhos ficaram bastante degradados, alguns até tiveram que ser desativados… Por isso, essa proatividade tem um potencial imenso para ajudar na conservação das montanhas, desde que corretamente orientada.

Pelas conversas que já tive, penso que são três fatores fundamentais que motivam as pessoas a ir pra montanha, são eles:

  • o contato com a natureza: pra relaxar e se livrar do estresse do cotidiano na cidade;
  • o desafio físico: pra superar seus limites através das subidas e dificuldades do terreno;
  • o desafio técnico: desenvolver/aprimorar habilidades de percepção e navegação – de certa forma “aguçar os sentidos”.

Nem todo mundo é estimulado pelos três quesitos simultaneamente, mas o importante é que existem locais específicos que se enquadram em cada um deles, e essa diversidade de ambientes precisa ser mantida. Permita-me explicar melhor:

Há umas semanas fui levar um grupo pra subir o Spitzkopf de Guabiruba, montanha não tão exigente fisicamente e bem menos popular que seu “irmão famoso de Blumenau”, logo, um local onde um mínimo de senso de navegação era necessário pra não errar nas bifurcações que há no caminho. Pra minha surpresa, alguém bem intencionado sinalizou a trilha, conforme podemos observar nas imagens a seguir:

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Haviam diversas iguais a estas. A ideia é boa, mas só eu penso que essas fitas não condizem com o ambiente natural? Além disso, o pouco fator de dificuldade que havia (encontrar o caminho) foi totalmente neutralizado. Não me interpretem mal, mas já existem diversos parques com trilhas auto-guiadas pra receber o pessoal que não busca um desafio, mas somente curtir o ambiente natural. Não é todo lugar que está preparado pra receber dezenas de visitantes, muitos sem a devida instrução sobre boas práticas e  comportamento em áreas remotas.

“Estruturar” ou “facilitar” demais todas as trilhas vai nivelá-las por baixo, o que pode ser ótimo para algumas pessoas, mas acaba com a diversão para outros, indo totalmente contra os princípios do montanhismo, cuja uma das frases mais célebres é:

“Prepare o homem para a montanha, não a montanha para o homem”

É simples, se você não tem conhecimento para seguir naquela trilha, procure outra, aprimore suas habilidades e daí então retorne, ou vá com alguém que já conhece. O objetivo não é impedir o acesso, mas sim evitar uma massificação que acaba se tornando prejudicial para certos ecossistemas.

Essa discussão sobre artificialização de montanhas já é antiga na escalada em rocha, desde os anos 70 quando Robbins e Harding escalavam em Yosemite com estilos totalmente distintos. Até mesmo o mito Messner já falou sobre o assunto: “Eu nunca pus uma chapeleta  em toda a minha vida e nunca irei pôr uma proteção fixa numa rocha. Se eu não puder escalar sem uma destas proteções, eu não escalo. Nunca usei garrafas de oxigênio. Se eu não puder escalar sem oxigênio extra eu não escalo mais alto”.

Guardadas as devidas proporções, precisamos tomar esse mesmo cuidado nas montanhas locais, antes que todas as nossas trilhas se tornem “estradas de tijolos amarelos”, onde qualquer espantalho sem cérebro, leão sem coragem ou  homem de lata sem coração  pode ir. E acredite, gente assim é o que não falta… 

Há bons exemplos de ações coordenadas por grupos e associações que deram certo, se quer ajudar, procure estes locais… Todo apoio é bem-vindo!