Terra Média Trekking

Trilhas, Travessias e Trips de Mochila

S.O.S. Montanhas

Esse texto tem como objetivo dar eco às palavras do Silvio Adriani – grande amigo e montanhista, fazendo uma análise crítica sobre os maus bocados que passei enquanto acampava com um grupo no Morro do Cambirela há poucas semanas, quando baderneiros infernizaram a noite de quem estava lá, bem como outros problemas que estão se tornando cada vez mais comuns no ambiente de montanha.


Foto: Adaptado de SetorReciclagem.com.br

Senta que lá vem a história. Era um fim de semana com tempo perfeito para montanha (céu azul e temperatura amena) e felizmente eu iria guiar um grupo que acamparia no Cambirela. A julgar pela quantidade de carros estacionados na base, muitas pessoas pareciam ter ouvido o chamado da montanha naquele dia, portanto, não foi surpresa quando chegamos nas áreas de acampamento e já havia boa concentração de barracas por lá (ainda que sobravam espaços vazios). O desanimador era o comportamento de parte desse pessoal: fogueiras, lixo, corte de vegetação, rojões e gritaria… Um verdadeiro estupro a montanha.

Pra ter um esboço do desrespeito, disponibilizo aqui um áudio que gravei exatamente a 01:45 hora da madrugada de domingo:

Pois é… Foi assim a noite inteira.

Esses problemas não são nenhuma novidade e já foram amplamente discutidos, mesmo assim não posso deixar de registrar minha opinião e observações a respeito dessas e outras questões: 

Superpopulação nas Montanhas 

É cada vez maior o número de pessoas frequentando ambientes naturais e isso é ótimo, afinal, só reconhecemos a importância daquilo que conhecemos. Porém, é perceptível que a grande maioria não tem noção de questões simples de segurança e boas práticas na montanha. Lembre-se que estar no meio do mato não torna você um amante da natureza, pelo contrário, podes estar difundindo hábitos que vão prejudicar esses locais ao invés de protegê-los.

Não é questão de má fé, mas sim falta de conhecimento quanto a questões básicas. Por exemplo, de uns tempos pra cá é comum ver profissionais de academias e afins organizando eventos promocionais em trilhas em meio a natureza para oferecer um dia diferente e estimular os clientes a superar seus desafios, o que é ótimo! Porém, muitos não tem ciência que as características da trilha e as condições do tempo influenciam diretamente em processos de erosão, podendo gerar cicatrizes (como ravinas e afins) difíceis de serem recuperadas.

Esse ano mesmo vi eventos aqui na região de Blumenau concentrando mais de cem pessoas simultaneamente em um único local onde a montanha já apresentava “machucados” que passam despercebidos, mas acabam sendo intensificados. Enquanto isso, acredite, já fui criticado por limitar o número de participantes nas caminhadas que promovo.

Erosão na MontanhaCrista erodida em uma montanha catarinense

Não estou querendo impedir alguém de ir até a montanha, apenas peço que procure conhecer e explorar cada local de maneira consciente, evitando disseminar práticas que interfiram negativamente sobre o ambiente! Afinal, a quantidade de pessoas buscando novas aventuras só tende a aumentar…

A Geração Wikiloc(o) 

É perceptível que boa parte do significativo aumento no número de frequentadores de ambientes de montanha deve-se a difusão de aplicativos de localização e informações sobre trilhas na internet. Já aproveitei dessas facilidades e as apoio totalmente, tanto que disponibilizo aqui no blog diversos dados úteis de diferentes locais, mas que devem ser utilizados de forma responsável.

Porém, até mesmo a montanha sofre com esse mundo cada vez mais digital, onde as máquinas “pensam” no lugar das pessoas. Essa galera que vai pra trilha confiando cegamente na tela do celular/gps chamo de “Geração Wikiloc(o)“, em referência ao famoso portal de tracklogs. E onde está o lado negativo?

Esses programas de navegação são suficientes para a grande maioria das montanhas, mas possuem certas limitações em alguns ambientes e, obviamente, podem falhar. Aí o pessoal se empolga com cada novo cume alcançado e as vezes dá um passo maior que a perna, se enfiando em alguma área onde o sinal não alcança e faz-se necessário ter conhecimentos de navegação… Vix, é mais um para as estatísticas dos muitos resgates solicitados todos os meses.

Terra Média Trekking - Quiriri
Nem sempre o caminho é tão evidente quanto esse…

A consequência é óbvia: essa galera não está somente colocando a própria vida em risco, mas prejudicando até mesmo os mais experientes montanhistas. A demanda por resgate está alcançando níveis tão absurdos que já está se discutindo proibir o acesso em certos locais e, se isso acontecer, não haverá distinção entre o “perfil” e o conhecimento de cada um, todos irão pagar!

Portanto, seja responsável e procure cursos de capacitação antes de sair se aventurando por áreas remotas!

O problema das fogueiras 

Já percebi em diversas conversas que boa parte das pessoas que acendem fogueiras em acampamentos são o que costumo chamar de “mateiros”, isto é, geralmente moradores locais que frequentam a mata desde muito novos e, por isso, possuem certa habilidade com o fogo. Não acredito que esse pessoal aja de má fé, o que lhes falta talvez seja instrução sobre os perigos da atividade e, principalmente, que lhes apresentem outras alternativas. Não é raro alguém me ver usando o fogareiro e vir pedir informações sobre o equipamento e onde comprá-lo…

Ainda assim, há aqueles que mesmo tendo ciência do perigo de seus atos, continuam fazendo fogo. Já vi até mesmo “guias” alimentando fogueiras…. À estes, lembro que só nesse último mês foram registradas queimadas no Morro do Araçatuba, no Monte Crista e na parte alta do Parna Itatiaia. Independente das causas destes incêndios, suas ocorrências já demonstram que o tempo seco propicia a expansão do fogo, portanto, por maior que seja sua experiência, não faça fogueira! Sou capaz de apostar que o visitante responsável pelo incêndio em Torres del Paine (2011) estava certo que tinha domínio do que estava fazendo. Não seja soberbo!

Queimada No Pico Jaraguá
Vegetação se recuperando do incêndio ocorrido no Pico Jaraguá em 2013 (Jaraguá do Sul – SC)

Existem equipamentos adequados tanto para cozinhar quanto para se manter aquecido, então, se teu objetivo é explorar montanhas e outros recantos naturais, pesquise e invista!

E a baderna? 

Bom, aí é uma questão de bom senso e educação. Com esse tipo de babaca (me desculpe pela palavra, mas não encontrei adjetivo que descrevesse melhor essas pessoas) fica difícil saber como lidar… Já até tentei conversar com alguns, mas infelizmente parece não haver solução para a ignorância…

Finalizando…

Todas essas questões implicam na degradação do ecossistema da montanha (em menor ou maior escala). Todavia, para que este artigo não seja somente uma crítica, mas também aponte uma direção, finalizo-o listando alguns itens presentes em códigos e tratados que abordam padrões de comportamento na prática de montanhismo, os quais roubei e resumi do blog do Davi Marski (in memorian). Leia atentamente, adote essas condutas e as difunda o máximo possível, por favor:

  • Saia em grupos pequenos. Os grupos grandes geram maior impacto que vários pequenos separados entre si;
  • Caminhe em fila, sem sair do caminho, sem gritaria desnecessária e não leve mascotes (cães e gatos, p. ex.);
  • Traga seu lixo, não perturbe a fauna, não corte a vegetação e não faça fogueiras;
  • Em caso de terrenos particulares solicite autorização e mantenha as porteiras como as encontrou (abertas ou fechadas);
  • Seja respeitoso com os demais;
  • Faça suas necessidades longe de trilhas e fontes de água (pelo menos 50 metros) e enterre-as.

São coisas simples, mas que contribuem de forma significativa…Faça sua parte!

3 Comments

  1. quando fui ao cambirela, não foi para acampar, mas percebi que existe uma frequencia por lá, que faz exatamente isso, uma forma de rechaçar e desestimular pessoas tranquilas em frequentar a montanha, gritos, piadinhas ao longo do percurso, ‘figuras’ inamistosas andando com grandes facões no cinto, e por aí vai, sinceramente não pretendo voltar lá, e com certeza não irá me fazer falta

  2. Já passei por situação semelhante lá no Cambirela… lamentável e revoltante.

  3. ana cristina Darella

    4 de setembro de 2016 at 10:39 AM

    ta ficando complicado..

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